Em resumo

  • A NOVA considera extensão e finalidade do processamento.
  • Estudos observacionais e ensaios respondem a perguntas diferentes.
  • Escolhas alimentares também dependem de renda, tempo e acesso.

1. Quatro grupos, diferentes finalidades

Nem todo alimento que passa por uma indústria é ultraprocessado. A classificação NOVA considera a extensão e a finalidade do processamento. Essa distinção ajuda a olhar para a formulação, além da tabela de nutrientes.[1]

Classificação NOVA: exemplos introdutórios
GrupoComo entenderExemplos
In natura e minimamente processadosAlimentos sem alterações ou submetidos a processos como limpeza, moagem, congelamento ou pasteurização.Fruta, arroz, feijão seco, leite pasteurizado sem adições.
Ingredientes culinários processadosSubstâncias obtidas para temperar e cozinhar.Óleo, sal e açúcar.
Alimentos processadosCombinação de alimentos do primeiro grupo com ingredientes culinários, para conservação ou preparo.Conservas em salmoura, queijos tradicionais e pães simples.
Alimentos ultraprocessadosFormulações com substâncias e aditivos característicos de uso industrial.Refrigerantes, biscoitos recheados e macarrão instantâneo.

Os exemplos são introdutórios: produtos com o mesmo nome podem ter formulações distintas. Classificar não significa atribuir valor moral a quem compra ou come.

2. O que o Guia Alimentar propõe

O Guia Alimentar para a População Brasileira orienta fazer dos alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação e evitar os ultraprocessados. Também discute modos de comer, habilidades culinárias, tempo e acesso — não apenas listas de nutrientes.[2]

3. O que os estudos mostram — e o que não resolvem

A evidência reúne desenhos de pesquisa diferentes. Dizer que associação não prova causa é importante para estudos observacionais, mas não descreve toda a literatura. Também existem ensaios que comparam dietas.

Leia o achado junto com o desenho do estudo
PesquisaO que acrescentaLimite importante
Revisão guarda-chuva de Lane et al., 2024 [3]Reuniu meta-análises de estudos epidemiológicos e encontrou associações entre maior exposição a ultraprocessados e diferentes desfechos adversos.A certeza varia entre desfechos; estudos observacionais podem ter confundimento e erros de mensuração.
Ensaio de Hall et al., 2019 [4]Em 20 adultos internados, cada dieta foi oferecida por duas semanas. Houve maior ingestão energética e ganho de peso na dieta ultraprocessada.Estudo pequeno e curto: não demonstra, por si, efeitos de anos de consumo nem todos os mecanismos envolvidos.
Ensaio de Dicken et al., 2025 [5]Comparou duas dietas alinhadas a orientações britânicas, durante oito semanas cada. Ambas produziram perda de peso, maior na dieta minimamente processada.Foram 55 participantes randomizados. Duração, fornecimento dos alimentos e características da amostra limitam a generalização.

A pergunta precisa acompanhar a resposta

Um ensaio pode apoiar uma conclusão sobre ingestão ou peso nas condições testadas, sem provar que cada produto isolado causa uma doença específica. E um resultado de grupo não prevê a trajetória de uma pessoa.

4. Como aplicar sem transformar comida em culpa

Comece por observar onde seria viável ampliar a presença de comida e preparações culinárias no cotidiano. Pode ser uma compra, uma refeição ou uma tarefa compartilhada. Não é necessário fazer uma mudança total de uma vez.

Renda, horário de trabalho, equipamentos, habilidade culinária e oferta do bairro mudam as possibilidades. A orientação precisa considerar essas condições, inclusive para não responsabilizar uma pessoa por barreiras que ela não controla.

Para comparar produtos, combine formulação, perfil nutricional e contexto. A classificação NOVA não substitui a avaliação de alergias, necessidades clínicas ou adequação de quantidades.

5. Três perguntas para ler uma notícia sobre o tema

  • O estudo observou hábitos ou distribuiu dietas por sorteio?
  • Qual foi o desfecho medido e por quanto tempo?
  • A manchete está dizendo mais do que a pesquisa permite?

Comer um produto ocasionalmente não define a saúde de ninguém. O cuidado envolve o padrão alimentar, outras condições de vida e acompanhamento quando necessário.

Fontes e leituras

Referências consultadas para esta revisão. Os links levam a documentos institucionais ou publicações científicas.

  1. Monteiro CA et al. Ultra-processed foods: what they are and how to identify them. Public Health Nutrition, 22(5):936–941, 2019. DOI: 10.1017/S1368980018003762. ↗
  2. Ministério da Saúde. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília, 2014. ↗
  3. Lane MM et al. Ultra-processed food exposure and adverse health outcomes: umbrella review of epidemiological meta-analyses. BMJ, 384:e077310, 2024. DOI: 10.1136/bmj-2023-077310. ↗
  4. Hall KD et al. Ultra-Processed Diets Cause Excess Calorie Intake and Weight Gain: An Inpatient Randomized Controlled Trial of Ad Libitum Food Intake. Cell Metabolism, 30(1):67–77.e3, 2019. DOI: 10.1016/j.cmet.2019.05.008. ↗
  5. Dicken SJ et al. Ultraprocessed or minimally processed diets following healthy dietary guidelines on weight and cardiometabolic health: a randomized, crossover trial. Nature Medicine, 31:3297–3308, 2025. DOI: 10.1038/s41591-025-03842-0. ↗

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação individual por nutricionista ou outros profissionais de saúde, quando indicada.

Edgard Bressan

Edgard Bressan

Nutricionista · CRN-3 91447
Profissional de Educação Física · CREF 170959-G/SP
Professor e mestrando em Educação na UMESP.

Alimentação, movimento e educação em diálogo com a vida cotidiana.

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